quinta-feira, 4 de junho de 2009

resenha no Estado de Minas

Resenha publicada no Estado de Minas. Achei muito interessante. E você, concorda com a leitura da repórter Silvia Laporte?


Estado de Minas

Contos de paixão mal resolvida

SILVIA LAPORTE

Quem gosta de ler, às vezes, se pega pensando até que ponto um autor de ficção está falando de seus personagens, ou de si mesmo, em seus escritos. Em Sujeito oculto e as demais graças do amor (editora Re­cord), seu romance de estréia, a jor­nalista Luciana Pinsky brinca com essa idéia. Num dia de janeiro de 2005, o professor Francisco recebe um envelope contendo três contos e um bilhete que diz o seguinte: "Por favor, dê sua opinião. Meu e­mail é ola@tudobem.com e para mim é muito importante um retor­no seu. Prefiro o anonimato, não por timidez, mas por querer que sua avaliação seja feita exclusivamente com base nos textos (...)".

Inicia-se assim um diálogo que, ao longo das 95 páginas do livro, se de­senvolve em planos distintos - a rea­lidade literária e a ficção dentro da ficção. "Você também escreve para que seus personagens façam o que você não consegue?", pergunta Fran­cisco, a certa altura da narrativa, ao que Jussara responde: "De jeito ne­nhum. Prefiro não delegar vida por aí". Passado e presente também se alternam enquanto Francisco e o autor anônimo, que logo ele desco­bre ser uma mulher, Jussara, tentam acertar suas contas emocionais pen­dentes. O estilo moderno e meio fragmentado da autora e a intensidade dos sentimentos e emoções dos persona­gens fazem, no entanto, um curioso con­traponto com o racionalismo intelectual dos dois protagonistas, que incubam uma paixão mal resolvida desde que ela, . aos 15 anos, foi aluna dele.

RETRATO – É por meio dos contos que envia a Francisco que Jussara vai mostrando o que realmente sente. Pelo menos na pri­meira metade do livro, os e-mails que trocam são mais objetivos do que reveladores. Pouco antes de ele descobrir a sua identidade, embora já intuísse que o tal autor anônimo era uma mulher, ela lhe envia um conto. "A marvada", que fala do namoro entre um rapaz de 20 anos que ainda mora com a mãe e uma balzaquiana. E é usando a voz des­sa personagem que Jussara coloca um espelho diante de Francisco:
"Eu só conseguia pensar naquela professora nos Estados Unidos que foi presa por namorar um aluno. Não queria ser condenada por atentado ao pudor, sedução de menores ou o equi­valente". Quando, no passado, se per­mitia pensar na bela aluna adolescen­te de inteligência aguda e não-con­vencional. era mais ou menos assim que Francisco se sentia.

Moacyr Scliar escreve, na orelha do li­vro, que o livro de Luciana "é mais que um texto de ficção. é um retrato de mui­tos dos jovens da nossa classe média (...), cultos, informados, sofisticados, capazes de interpretar seus sentimentos, capazes de pensar sobre suas vidas". O que não significa, no entanto, um final feliz. A ri­gor, a história de Francisco e Jussara com suas muitas idas e vindas, não tem um desfecho. Como ocorre no mundo de verdade, quando os sentimentos são for­tes como os dos dois, uma paixão não se supera. A vida continua, mas a memória fica, tanto do que realmente foi quanto do que se sonhou que poderia ter sido.

6 comentários:

Thomás disse...

...até que ponto um autor de ficção está falando de seus personagens, ou de si mesmo...é a pergunta com muitas respostas ou nenhuma. O autor sempre está falando dele mesmo até um certo ponto. Mas o mais incrível é entrar na viagem sem se preocupar com a quem aquele personagem pertence. Esse é o "barato" da ficção. Poder ser, por algumas páginas, mais precisamente 95 páginas...um Franciso ou uma Jussara qualquer.

Renato disse...

Olá, a resenha adiciona mais uma camada daquilo que ela própria diagnostica, ou seja, a constatação de que, no cotidiano, a vida continua sem, necessariamente, finais... Essa é a força da narrativa de Luciana, que capta, com vigor, a eterna tensão entre sentidos, fatos e cotidiano.

Jacqueline disse...

Gostei da conclusão da resenha, porque parece verdade que uma história entre pessoas, concretas ou imaginárias, nunca termina, na medida em que pode ser continuamente reinterpretada, reescrita e relida. Achei que a autora da resenha fez uma boa leitura do seu texto e um bom texto sobre a sua escrita.

Rafael Belo disse...

São pensamentos abstratos em concretude, são sentimentos reais inflando vida a personagens possíveis e impossíveis(?). São pontos aumentados que os tornam ficção ou poderiam ser minah história ou a sua. Bela resenha sobre seu sujeito oculto, tenho uma poesia antiga com o mesmo título, só não é "exatamente amor" nem há demais graças. Beijos Lú, ótimo fim de semana

Cal disse...

Os personagens e o autor... na verdade os personagens indicam o caminho pro autor, e para mim essa mágica que cria um texto. A Jussara e o Francisco existem a anos, a Luciana apenas soube ouvi-los e com muita capacidade nos apresentou através de seu livro, uma leitura muito gostosa!!!!

Valéria Martins disse...

Querida Luciana, obrigada pelo comentário no meu blog.

Devo retornar a SP em julho e voltarei a lhe avisar.

Pelo visto, o Sujeito Oculto vem lhe dando muitas alegrias, que bom!

Um beijo