quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Yom Kippur


(crônica nova)

Por Luciana Pinsky

Nesta hora, outros fossem os tempos, eu procuraria você. Contaria das aflições que me perseguem. O medo do passo, dos passos que darei. Da atração ao precipício, que me instiga. Eu, aventureira nata. Você me entenderia, você que me circulou a vida toda saberia entender mais esse medo, entre tantos que já tive. Exceto que você foi meu precipício, que segui, que pulei, que retratei. Exceto que você ficou na margem, olhando o meu salto, apreciando minha coragem e dizendo: “fique bem”.

Costelas, ossos, nervos em frangalhos. Os profissionais disseram: “você vai ficar bem”. Eu não tinha tanta certeza, mas, de fato, fiquei. Com proibições aqui e ali, com certos traumas antes inexistentes, é certo, mas bem. Bastante bem. E ao pular no precipício – e ver que você me via, mas não vinha – eu sabia que jamais, nunca mais, poderia contar. Jamais teria o seu olhar atento, sua visão diferente, seu conselho amigo. Pois amigo você jamais foi.

Pensando bem, é mais do que justo. Se você só pôde contar suas aflições por um mínimo período, por que eu poderia enchê-lo de dúvidas pela vida afora? Se você me teve em soneto, por que eu poderia tê-lo em epopeia? É justo, mas nesta hora do passo, da aflição, do caminho, dá uma saudade danada do você que eu criei para mim. Porém, do você de (muita) carne e (pouco) osso só desejo que fique bem. Longe.

terça-feira, 20 de outubro de 2009

Nomes


(nova crônica)

por Luciana Pinsky


– Fernanda.
– Ih, não dá.
– Tatiana.
– Nem pensar.
– Sofia.
– O nome é lindo, mas… Olha, vamos pensar em nomes masculinos. Cléber.
– Uh.
– Pedro.
– Tsc tsc.
– Sérgio.
– Vai acento.
– Como?
– O nome é acentuado. Paroxítona terminada em ditongo. Não dá para usar acento no nome do coitado, porque com essas regras que estão por aí, tudo pode mudar a qualquer momento e babau.
– Babau?
– É. Fica com nome errado. Não dá. Você jornalista, eu professora de português. Pega mal.
– E Francisco? Não tem acento e duvido que você tenha namorado um Francisco.
– É. Não namorei mesmo. Mas... não sei, algo me diz que não é bom nome. Ah, lembrei. Eu tinha um amigo Francisco. Gente boa. Mas ele era tão complicado, mas tão complicado que depois de duas horas de conversa com ele minha cabeça entrava em transe e eu tinha de tomar um milk-shake para voltar ao normal. Engordei uns cinco quilos em dois meses. Aliás, já estou com vontade de milk-shake de chocolate só de lembrar. Ah, vamos voltar a nomes femininos. Quem sabe? Ana.
– Nananinanão. Marcelo?
– É o nome do seu sobrinho, esqueceu?
– Ah, é. Ricardo.
– Ricardo. Vamos ver. Ricardo. RICARDO. Ri-car-do. Ri... Uh. Não soa mal.
– Também gostei. – Moço, vamos ficar com o coelho macho.

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

comentário simpático

Viajo pouco pela blogsfera. Mas de vez em quando me deparo com alguns comentários muito simpáticos sobre Sujeito oculto. Eis um aqui:
Vejam este: http://pap-pel-de-papel.blogspot.com/2009/10/esses-dias-estava-na-livraria-com-meu.html

terça-feira, 22 de setembro de 2009

Conquistas


(crônica nova)

Por Luciana Pinsky

Foi instantâneo, como nunca antes. Eu já o conhecia, mas só de “oi” e “tchau”. Daquela festa fomos para outra e 5 horas depois éramos um casal. Cinco dias depois me mudei para a casa dele. E mais 10 dias, nossa primeira separação: eu viajaria por 15 dias a trabalho. Trocamos 20 e-mails e marcamos, para 5 meses depois, a data do casamento. E na volta corremos para avisar todo mundo. Assim estamos há 10 anos e 25 viagens juntos.

Ela era linda. Ela era jovem. Ela era apaixonada por mim, de uma devoção tocante. Ela tinha olhos verdes e uma forma de convidar irresistíveis. Débora um dia me chamou para almoçar eu fui sem saber que 2 dias depois terminaria o namoro e que em 4 já nem lembraria da outra a ponto de não reconhecê-la na rua – não fiz por mal, juro. Em 6 dias não nos desgrudamos mais e em 12 ela engravidou.

Ficar por ficar não faz meu estilo. Mas ficar sozinho muito menos. E por acaso faz de alguém? Pois eu sentia que algo especial poderia acontecer com aquela loira esquentada e quente, quentíssima. Mas ela me fervia em banho-maria e fui me empanturrando de Maria em Maria, Ana em Ana, Joana em Joana... Até que a loira surgisse novamente e nunca mais anas, marias e joanas.

Gostei do sujeito desde o primeiro olhar. Mas eu não estava exatamente livre. Nem exatamente feliz. Lembro do toque no meu braço e do cabelo desarrumado de gel – traço de homem vaidoso que eu costumava detestar. Mas o cheiro, o cheiro... Não deu tempo de ficar livre. Enquanto ele não largar o perfume, largo dele não.

Ela me venceu pelas ausências. Ausência de discurso pronto, de exigências, de frescuras femininas, de pedidos, de certezas. Ausência de amigos chatos, de influência da mãe, de complexo de Édipo mal resolvido. Ausência de botox, silicone e rímel. Odeio rímel. Ausência principalmente de fala. Vixi, deus me deu a única mulher da terra que fala pouco, uma benção. Única mesmo porque nossas quatro filhas não param quietas.

Vi e não gostei: feio. “Ele é gente boa”, disseram. Não adiantou. Sou tão bonitinha. Faço ginástica cinco vezes por semana, sou religiosa na manicure, cabeleireiro, limpeza de pele e em outras coisinhas mais. Mereço um moço razoável, uma barriga de tanquinho, olhos azuis, morenão. Ele disse: “ok, espero”. E foi se embelezando sei lá como, sem mudar nadinha, de repente estava um encanto. A mão máscula, forte. As pernas decididas. E a voz, a voz.

- Voz? Ah, o Ricardo me ganhou com sotaque e biquinho. Ele era amigo do meu namorado, um cara normal como tantos da faculdade. Mais de ano depois descobri que ele morara na Guiana Francesa quando criança e falava francês. E vinha ele com ça va para cá, dizia que beau combinava com belle, queria decidir tudo na face et pile, só dava instruções à gauche à droite, en haut en bas e antes de chegar em vélo eu já era dele.

terça-feira, 14 de julho de 2009

A passagem

(conto novo)

E tudo teria ficado assim se não fosse aquela sua passagem rasgante. De cara, não percebi você. Na verdade, só fui perceber horas depois ao reviver a cena na minha cabeça. Faço sempre isso, vivo e revivo. Aquele cardume de gente de patins à minha volta e eu preocupado em defender a Lorena, minha pequena. Só muito depois, reconstituindo a cena, vi você. Você que gostava de patinar. Você que sempre me pediu para patinar junto. E eu comecei a patinar sim. Mas só depois. E levei comigo a Margarida, mãe de Lorena. Ah, Margarida faz tudo o que eu quero, como você algum dia já fez. O melhor é que eu nunca tive de pedir. Você adivinhava meus pensamentos, parece, como ela faz agora. Margarida. Você. Eu. Lorena.

Lorena não. Ela não faz só o que quero. Está mais para o contrário. Eu que nem me imaginava com essa responsabilidade sobre a vida de alguém, sou o tal do macho provedor, como as mulheres criticavam quando queimavam sutiã. Por mim, tudo bem. Nunca gostei de sutiã mesmo.

E por que você foi passar por mim tão rápido? Por que não olhou para trás? Será que me viu? Ou será que fugiu da minha decadência? Decadente, eu? Não... continuo exatamente o mesmo. O mesmo carro. O mesmo emprego. Os mesmos amigos. A mesma família. Os mesmos sapatos. O mesmo gato. Mesmas óperas, romances. Mulher, apenas, que mudei um pouco. Entre você e a Margarida teve a Elisabeth. E a Norma. E a Zezé. É, acho que foi isso. Mas nenhuma patinava. Nenhuma tinha pernas tão densas e raciocínio tão debochado. Nenhuma me deixava para trás. Você, no início, também não deixava. Você não voava, ainda insegura. Ia devagar e eu acompanhava de bicicleta aos sábados. Mas parei de acompanhá-la e você foi aumentando o ritmo a ponto de perder-me. Quem mandou?

E hoje, do nada, depois de tanto, tantas, você passa por mim e não me vê. Como ousa não ter me visto? Você jurou ser sempre minha e eu sei que é. Mas você sabe que não poderia ser a mãe de Lorena. Não era para ser, diriam os místicos. Sou místico quando convém. Psicanalista quando me explico. Você queria que eu patinasse tão rápido quanto você. E eu nem patinar queria.

Mas hoje vendo suas pernas firmes e precisas me deixando para trás... Ah. Será?

(Ilustração: Thomás Coutinho Camargo - http://www.flickr.com/photos/thomastaipa/)

segunda-feira, 13 de julho de 2009

Voo apaixonado



(conto com nova ilustração)

A intensidade daquela relação transparecia nos estragos. Começou com perna de cama e de cadeira no chão: marca da paixão intensa. Depois foi uma frigideira na parede, sinal de problema. Por fim, a costela quebrada mostrou que o amor já era. Já?

Ele conheceu Renoar, linda morena. Ela tentou Baltazar, sempre tão prestativo. Cama, cadeira, frigideira e costela intactos. Já o coração deu marcas de cansaço.

Ele largou Renoar, ela fugiu de Baltazar. Nunca mais amar, nunca mais quebrar. Ele ficou com suas argilas, ela investiu seriamente nas palavras cruzadas.

Em uma noite fria de inverno temporão, ele saiu do seu portão e foi ao bar atrás de Renoar. Com letras e mais letras na cabeça, ela precisava espairecer e chamou novamente Baltazar, das mãos quentes e cabeça leve.

Ele bateu os olhos nela e bateu boca com Renoar, que foi embora, sentida. Ela só o viu quando a bela morena levantou da mesa. Ele a chamou com o olhar, ela apontou para Baltazar. Ele esfregou as mãos e as soprou, mostrando que era ainda mais quente que o concorrente.

E os estragos voltaram. Pratos voaram. E os dois se mandaram para a praia. O carro derrapou. E ela finalmente voou.

(ilustração: Thomás Camargo Coutinho - http://www.flickr.com/photos/thomastaipa/)

segunda-feira, 15 de junho de 2009

Revista da Folha


Amores paulistanos

“Apaixonar-se vendo o mar tem outro sabor”. Isso me escreveu – ainda na era das cartas – uma amiga carioca, que me matou de inveja ao detalhar-me o encontro dela, adolescente, com um moço também adolescente em pleno Arpoador.

“Será que São Paulo não serve para o amor?”, pensava eu em pleno 875 C Santa Cruz, ônibus que me levava de casa ao clube.

Minha inveja desabou quando um querido amigo contou-me da sua paixão iniciada em um ponto de ônibus. Todo dia à uma da tarde ele saia da escola para o trabalho. E a moça estava lá. Ele ia para Pinheiros e ela para Vila Mariana. Até os respectivos ônibus passarem, eles engatavam uma conversa rápida. Mas um dia desistiram de Pinheiros e da Vila Mariana e foram tomar um sorvete. E assim começou o primeiro amor da vida dele.

E para seguirmos nos meios de transporte, conto de outro amigo que ficou tão impressionado com uma moça que viu no metrô Sumaré, que teve certeza que encontrara a mulher da vida dele. Branquinha quase pálida, de cabelos negros e olhos perdidos pela janela. Quando ele ainda estava tomando coragem para puxar conversa, ela saltou na Consolação e ele seguiu desolado ao Paraíso. Uma vez por semana ele refaz a linha exatamente na mesma hora para tentar encontrá-la. Quem sabe?

E ainda temos os amores de resgate. Já vivendo em Salvador, testemunhei uma história clichê: ela apaixonou-se por um folião que conheceu em pleno ensaio do Olodum. Ela morava lá. Ele aqui. Amor à distância não dá certo e ela queria mesmo uma boa desculpa para voltar a morar em São Paulo, já que estava morrendo de saudades do frio no inverno. Está aqui até hoje.

Há vários clássicos de faculdade, mas nenhum supera o meu amigo reincidente. Ele se apaixonou em uma na sala de aula comprida e estreita no primeiro ano da graduação de uma unidade da USP. Namorou. Casou. Separou. Muitos anos depois, na mesmíssima sala, agora pós-graduando, apaixonou-se de novo. Namorou. Casou. Permanece.

E como paulistano depois dos 30 anos começa a ficar vaidoso, meu outro amigo foi fazer ginástica para perder a barriga. Se ele foi bem-sucedido no intuito eu não sei, mas logo sua treinadora ganhou uma barriguinha, que virou barrigão e que virou um bebezão.

Com tantas inspirações ao meu redor, não foi à toa que ao pensar em um cenário para Jussara e Francisco – os personagens do meu romance Sujeito oculto e demais graças do amor, me veio o centro, a escadaria da Sé, onde São Paulo é tão cruamente São Paulo. Foi lá que, de certa forma, tudo começou para eles.

São Paulo é, sim, um ótimo ambiente para cultivar o amor. Apaixonar-se no Arpoador é fácil, difícil é cair de amores em plena avenida Paulista. E como diz aquela amiga que voltou para cá: “O amor que resiste em São Paulo supera tudo.”
E nem eu escapei do clichê: depois de algumas histórias que começaram em carros – e olhe que gosto mesmo é de bicicleta – foi em um restaurante japonês que vi a minha sorte mudar.