quarta-feira, 26 de novembro de 2014


O confronto

De um lado Márcio. Ele provavelmente tinha sonhos. Queria estudar, ser veterinário, trabalhar com cachorros e gatinhos. Mas mal e mal terminou o ensino médio.  O professor de Biologia – sua matéria preferida -, raramente aparecia e quando vinha era uma ladainha de nome sem explicação. Olhava a sala com desprezo e se Márcio ousasse uma pergunta era logo desencorajado. Assim, Márcio foi se calando e antes que a vida de adulto começasse desistiu da vida com que sonhara. Teria o que desse, do jeito que desse. Mas ia ter troca, ah ia. Virou atendente da Eletropaulo.

Do outro lado, eu. Sem luz há exatas oito horas – depois de ter psicado e ameaçado acabar no início da noite, ela se foi de vez às 23h. Às 7h a energia permanece tão distante quanto em uma praia perdida em que a geladeira é movida a diesel. Exceto que estou na rica, desenvolvida São Paulo. Cidade que não tem água e quando chega água em forma de chuva, fico sem luz. Afinal, tudo não dá como dizia a tia do meu pai.

E lá vou eu enfrentar o Márcio.
- Sim.
- Estou sem luz há 7 horas, gostaria de saber o que aconteceu.
- Essa informação não tenho, senhora.
- ... E quando a luz vai voltar.
- Essa informação não tenho, senhora.
- Mas que informações você tem, Márcio?
- As que a senhora me passar: endereço, telefone de contato, número de instalação etc. etc. etc.
- Mas, Márcio, você não pode me dizer nada? Tenho criança pequena, moro em andar alto.
- Posso. O número do protocolo é 380557620.
- Mas o que faço com esse número se você não me deu informação alguma? Quando a equipe vem consertar? O que está acontecendo?
- Mas, senhora, o que a senhora quer que eu faça? Não sou o superman da Eletropaulo.
É serio. Márcio, aquele garoto tímido da classe de Biologia me disse isso. Por que o consumidor tem de ser necessariamente tratado como lixo? Eu achava que não estava pedindo muito, só luz. Márcio se vingou de uma vida de frustrações. A Eletropaulo lava suas mãos (com água da chuva, claro). Perdemos todos.

(26/11/2014)

quarta-feira, 11 de maio de 2011

Querido,

(crônica nova)
Por Luciana Pinsky


É um prazer tão grande vê-lo que até esqueço a quantidade de sofrimento despejada na minha vida com sua furocólica aparição. Dei até para inventar palavras, pois as que existiam não eram suficientes para você. Sempre megalomaníaco, até quando não queria. Encontro casual com a pessoa menos casual do planeta. É um prazer quase físico olhar nos seus olhos. É uma alegria leve, que de nada lembra as noites solitárias regadas a Orwell e licor de pera. É, aquele licor mesmo que você recusava, pois era de uma doçura enojante. Enojante era sua falta de açúcar.

É um prazer mesmo, ironia nenhuma. Nunca fui irônica, nem quando tentava. Gostava um absurdo de tê-lo por perto. Você me perguntava o motivo e eu não sabia. Como saber? Sei que você se foi e ficou o licor de pera desprezado, mais livros do Orwell – recomendo o da filha do reverendo, se você não leu, tem tudo a ver com as noites gélidas de Curitiba – e nada dos meus antigos colegas. Você, seu vocabulário interminável, eu, minhas dúvidas sem fim. Era errado. Simplesmente errado.

Era? Talvez. Todos sabiam. Todos. Você, logo de cara. Mas, inebriado por meu “exotismo” (exótica? eu sou a pessoa mais normal que conheço...) teve de me beijar. Já eu nem queria saber de “errado”, coisa mais antiga. Agora sei. Fiquei marcada. Perdi companheiros, horrorizados com os meus atos, minha entrega. Tive até de deixar a cidade, vim aqui para cima no calorão. Também eu larguei o licor de pera para nunca mais. Raiva? Ressentimento? Rancor? Nada disso. Hoje, estranho, só lembro do prazer de estar ao seu lado. Da graça. Da intimidade tão absurda para duas pessoas que mal se conheceram. Torno-me tolerante, surpresa até para mim. Deve ser a Maria, que já me transforma mesmo antes de chegar.

É tão, tão bom falar com você. É como se tivéssemos nos visto ontem. O mesmo homem nobre. Mantém a elegância fidalga que me intrigou. Agora sei que foi por causa dela que você me ganhou. Justo eu. Uma mulher revolucionária até nos fios de cabelos descoloridos. Do povo, para o povo. Quem diria que seus múltiplos cabelos brancos iriam me distanciar do meu lema. Até a Corte frequentei. Luta de classes? Que nada: eu queria as classes bem juntinhas.

E aí a desgraça anunciou-se, como você anunciara. Você sempre disse que seríamos vulcânicos. Chocantes. Pecadores. Inviáveis. Os opositores, do meu lado e do seu, repetiam como mantra:

- Povo e Aristocracia unidos?

- Como ela pode se vender assim?

- Como ele pode decair tanto?


- Como o amor pôde ser tão volátil? – pergunto eu, que desde então alcancei a felicidade sóbria.

A resposta deve estar em mim, como os céticos e estranhamente invejosos espectadores cochicham (inveja do que, afinal, da sua calculada distância? da minha capacidade de continuar feliz ao vê-lo?). Não replico. Não reclamo. Prazerosamente, constato.

Foi, como sempre, um prazer, meu querido. Que esta o alcance bem. Espero que tenha feito boa viagem.

Beijos,

Eu.

(Encontros I)

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Meia história


 
(crônica nova)

Por Luciana Pinsky

Nossa história poderia ter sido uma sucessão de sonhos ou ataques incessantes de predadores. Não foi boa ou ruim porque nem história foi. Foi meia história, quase um filme francês. Não, não, péssima comparação. Filme francês dura tempo demais e nada acontece. Por isso não tem fim. Nossa história durou tempo de menos e tanto aconteceu... por isso teve um meio fim. Ou um fim completo mesmo com direto a renascimento no melhor estilo Caetano Veloso para quem gosta dele (“E quem há de negar que esta lhe é superior”)

Meia história porque começou com tudo, continuou no tranco e acabou por WO. E WO, convenhamos, não tem a força dramática de um violão na cabeça, de discos riscados, de gritos noturnos, de terceiros no caminho, de mudança de cidade ou, muito mais grave, de querer-me atleta.

Você, imagino, tem histórias completas com ciclos bem vividos e ressentimentos guardados. Você só me falou de relance, como de relance me olhou, mas foi suficiente. Eu sempre completei as lacunas, tantas, de tantas formas que hoje já não sei se fazem parte da nossa meia história ou apenas do meu quarto de história.

Mas acho que já me estendi demais. Nossa meia história não é romance, conto ou mesmo crônica. Está mais para haicai, mas haicai eu não sei escrever.
Pensando bem, se nossa história em vez de meia fosse inteira, ela não seria tão prolífera. Completo nossa meia história com história inteiras tão reais que nelas habito ao menos no tempo da escrita. Acompanha-me?

(Encontros II)

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Reportagem

De bicicleta na Provence. Reportagem escrita o ano passado para o UOL Viagens. Acaba de ir ao ar. O link é: http://viagem.uol.com.br/ultnot/2010/11/03/pedalando-quatro-dias-pela-regiao-da-provenca-na-franca.jhtm

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Jet lag


(crônica nova)

Por Luciana Pinsky


Camisa vinho de manga curta. Estampada por folhas de plantas médias para grandes cor de gelo. Três botões de cima para baixo desabotoados. Tez vermelha, pelos pretos escapando do tecido. O cabelo, não abundante mas quase comprido, recentemente pintando de preto. Apresento meu companheiro de viagem de horas, horas e ainda mais horas em um voo sem fim ao outro lado do mundo.

E minha cabeça começa a rodar de raiva porque era você que deveria estar ao meu lado. Você. Com cabelo (vasto, por sinal) naturalmente multicolor. Camisas impecavelmente passadas (como manter assim depois de horas amassadas na mala ainda é um mistério para mim, que sempre recorro ao miniferro de passar que carrego), certamente mangas compridas e um hálito convidativo. Pena que a língua nunca tenha completado o convite.

A culpada é ela. Ela. Elinha. Elíssima. Tudo caminhava bem, você usava sua fina ironia comigo. Eu pressentia que sua timidez iria, finalmente, deixar-nos. Debaixo daquela banca de sério certamente um animal sem controle me procuraria, me derrubaria, me arrebataria. Levaria-me para uma viagem bem mais longa que essas intermináveis horas ao lado do ser que – agora – decidira roncar.

Mas ela. Assim no mais, ela. Eu que sabia de todos seus passos só senti o perigo tarde demais. Vi os olhares, mas olhar pode ficar no olhar. Deixei passar. Erro. Você era outro. Emagreceu. Um bom humor irritante. Sorriso, risos até. Você nunca foi de gargalhada. Falava pouco, contava nada, vago. Fugia. E o olhar mudou também. Às vezes mirava qualquer coisa e permanecia assim por longos minutos até ser interrompido.

Mas ela? Por que ela? Ela não tem nada a ver com você. Não entende nada de moda (você gosta de luxo, não consigo imaginá-lo subindo no metrô de tênis) ,vive correndo por aí (você é 100% sedentário), um pouco folgada (você sempre odiou gente intrometida), aventureira (vai me dizer que você vai segui-la em lombo de camelo?), “liberal” (aposto que apronta) e nem loira é. Eu também não, mas posso ser se você quiser.

Ufa! Finalmente o avião pousando. Meu vizinho, ainda meio chapado de sono, limpa a baba da noite bem dormida na minha blusa. Mas não faz mal. Você estará me esperando no aeroporto. Sem ela.

(Encontros III)

terça-feira, 6 de abril de 2010

Epifania no domingo de Páscoa




(crônica nova)

Por Luciana Pinsky



O avião ao longe me distrai do livro sobre livro, da história da História da história, no qual avanço ora sôfrega, ora trôpega. Quero-me no outro quarto onde sua respiração me convida. Imagino suas mãos no teclado, um tanto quanto pesadas. A batida que desespera os técnicos eletrônicos é um dos seus maiores encantos. A música que só você ouve, uma linguagem na tela que só você entende. Você me escancara meus tantos analfabetismos contra tão poucos letramentos.

Agora o cachorro late por seu jantar e eu troco o livro egocêntrico por outro que me leva mais uma vez à Grécia. O berço de tudo que já inventaram e vão inventar... salvo, talvez, o pós-moderno e o Carnaval. Sei não. Daqui a pouco alguém vai dizer que Aristóteles era mestre-sala. E de tanto viajar para aquela península, o grego de 25 séculos atrás me parece mais familiar que esses estranhos códigos que você espreme do sofrido teclado. Que força!

Exaustos, nos encontramos na sala. E subitamente, a epifania: viro expert em HTML e você fluente em grego antigo.

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Aniversário

Hoje faz exatamente um ano que Sujeito oculto e demais graças do amor foi lançado. Agradeço a todos que leram, comentaram, ajudaram na divulgação, contaram para os amigos.