Amores paulistanos
“Apaixonar-se vendo o mar tem outro sabor”. Isso me escreveu – ainda na era das cartas – uma amiga carioca, que me matou de inveja ao detalhar-me o encontro dela, adolescente, com um moço também adolescente em pleno Arpoador.
“Será que São Paulo não serve para o amor?”, pensava eu em pleno 875 C Santa Cruz, ônibus que me levava de casa ao clube.
Minha inveja desabou quando um querido amigo contou-me da sua paixão iniciada em um ponto de ônibus. Todo dia à uma da tarde ele saia da escola para o trabalho. E a moça estava lá. Ele ia para Pinheiros e ela para Vila Mariana. Até os respectivos ônibus passarem, eles engatavam uma conversa rápida. Mas um dia desistiram de Pinheiros e da Vila Mariana e foram tomar um sorvete. E assim começou o primeiro amor da vida dele.
E para seguirmos nos meios de transporte, conto de outro amigo que ficou tão impressionado com uma moça que viu no metrô Sumaré, que teve certeza que encontrara a mulher da vida dele. Branquinha quase pálida, de cabelos negros e olhos perdidos pela janela. Quando ele ainda estava tomando coragem para puxar conversa, ela saltou na Consolação e ele seguiu desolado ao Paraíso. Uma vez por semana ele refaz a linha exatamente na mesma hora para tentar encontrá-la. Quem sabe?
E ainda temos os amores de resgate. Já vivendo em Salvador, testemunhei uma história clichê: ela apaixonou-se por um folião que conheceu em pleno ensaio do Olodum. Ela morava lá. Ele aqui. Amor à distância não dá certo e ela queria mesmo uma boa desculpa para voltar a morar em São Paulo, já que estava morrendo de saudades do frio no inverno. Está aqui até hoje.
Há vários clássicos de faculdade, mas nenhum supera o meu amigo reincidente. Ele se apaixonou em uma na sala de aula comprida e estreita no primeiro ano da graduação de uma unidade da USP. Namorou. Casou. Separou. Muitos anos depois, na mesmíssima sala, agora pós-graduando, apaixonou-se de novo. Namorou. Casou. Permanece.
E como paulistano depois dos 30 anos começa a ficar vaidoso, meu outro amigo foi fazer ginástica para perder a barriga. Se ele foi bem-sucedido no intuito eu não sei, mas logo sua treinadora ganhou uma barriguinha, que virou barrigão e que virou um bebezão.
Com tantas inspirações ao meu redor, não foi à toa que ao pensar em um cenário para Jussara e Francisco – os personagens do meu romance Sujeito oculto e demais graças do amor, me veio o centro, a escadaria da Sé, onde São Paulo é tão cruamente São Paulo. Foi lá que, de certa forma, tudo começou para eles.
São Paulo é, sim, um ótimo ambiente para cultivar o amor. Apaixonar-se no Arpoador é fácil, difícil é cair de amores em plena avenida Paulista. E como diz aquela amiga que voltou para cá: “O amor que resiste em São Paulo supera tudo.”
E nem eu escapei do clichê: depois de algumas histórias que começaram em carros – e olhe que gosto mesmo é de bicicleta – foi em um restaurante japonês que vi a minha sorte mudar.