quinta-feira, 19 de março de 2009

O vigilante

E eu que nem sabia que era escritor, recebi uma encomenda talhada para mim: um texto em que eu falasse sobre livraria. Assim que desliguei o telefone já sabia a história que colocaria no papel. E, aqui, no ar. Escrevi para a revista Superpedido O link é http://www.superpedido.com.br/Site/Revista.aspx?ID=171

Será que você tem, também, uma história assim?

O Vigilante

De todos os lugares onde vivi, só este eu chamo de lar. A sala, imensa. Quarto propriamente dito não há, é verdade. Nem banheiro, só toalete. A cozinha parece mais um café. Pensando bem, é mesmo um café. Os corredores convidam para um passeio, nem tão estreitos que atrapalham a circulação, nem tão largos que dificultam a visão do outro lado.
E, o melhor: a mesa com duas cadeiras. Lá estou sempre acompanhado. E bem acompanhado, com figuras das mais diversas. Por vezes estranhas, amarguradas, sofredoras; outras, alegres, apaixonantes, irresistíveis. Sempre que possível profundas, pois não tenho paciência para o óbvio.

Lá no fundo da sala, na clareira entre dois corredores, eu passei tantas horas, dias. Sentia, é verdade, uma falta danada do tabaco, chegava a imaginar a fumaça envolvendo docemente meus pulmões em uma carícia ilegal. Mas tomava outro café e a vontade de ficar era maior que a de fumar.

A madrugada foi sempre meu melhor momento. Tantas e tantas noites sem dormir e não por insônia: é o desejo de me manter alerta em um mundo desatento. Uma vontade de viver, quando os outros ficam alheios. Minha felicidade em produzir no momento de descanso dos demais. O estranho silêncio da metrópole me compele a respirar mais alto. E tantas horas com um livro na mesa do meu lado esquerdo, um caderno do meu lado direito. Um cigarro apagado entre o indicador e o dedo médio da mão esquerda, a caneta preta na direita.

Endereços para correspondência eu tive muitos. Já morei no terceiro andar em um prédio da Vila Clementino, depois no décimo do Paraíso. Já tive uma pequena casa em Perdizes, e antes no Brás. Até passei um tempo no centro da cidade, experiência marcante. Mas nunca nenhum lugar foi tão meu como aquela cadeira, naquela mesa, a qualquer hora.

Pois bem, e agora, nove da noite você quer que eu deixe a Livraria O Vigilante porque vocês vão fechar? Daqui para frente não vão mais funcionar 24 horas? Reduzirão o horário pela metade, das 9h às 21h, como outras livrarias? Mas nenhuma chama O Vigilante. Nenhuma eu conheço tão detidamente. Nenhuma é minha casa. Como vocês fazem isso com seu melhor habitante? Quero dizer, cliente? Pois eu compro todos os livros que me acompanham até aquela mesa. Às vezes, é verdade, eu trago exemplares de casa para acabar a leitura aqui. Mas sempre fui lucro fácil. Era uma troca justa. Agora você me fala em “nova direção”, “novos hábitos”, “século XXI”, “ócio criativo”, “the city must sleep”. E até a mesa, minha mesa, foi embora. Imperdoável.

Francisco (ele é professor universitário e personagem do livro Sujeito oculto e demais graças do amor de Luciana Pinsky, publicado há pouco pela editora Record. Para conhecer mais sobre o livro e sobre Francisco basta acessar o blog lucianapinsky.blogspot.com . Ah, e também ir em qualquer livraria em horário comercial)

2 comentários:

Jacque disse...

"é o desejo de me manter alerta em um mundo desatento". Que beleza de idéia! Estava com saudades de seus textos... e olha que não tem sido por causa de falta de texto para ler... como colega de Francisco, a minha busca é por ler coisas que me transportem para algo mais concreto, algo que me tirem da mesa e da livraria para uma vigília mais feliz.

Anônimo disse...

li de sopetão, no tapa e a sensação foi muito boa. água fria na cara, só para refletir sobre o que se está fazendo na vida, minha cara. muito boa a leitura. aqui há texto.


Ernâni Getirana, poeta

ernani_lima@ig.com.br

BLOG htt://getirana.blogspot.com