segunda-feira, 10 de dezembro de 2018

O livro roxo


(conto novo)

por Luciana Pinsky


Pronta para dormir, campainha toca, ninguém, nada a não ser um envelope chamativo, roxo. O que será? Um livro pequeno de capa roxa. Não conheço, de onde terá vindo? Sem remetente ou cartão. Abro. Uma história de amor, não serão todas? Daqueles textos irresistíveis. Adio o sono, leio.

Protagonista confusa: ela gosta, depois não gosta, volta a gostar, odeia, ama. Que mulher que não sabe o que quer. Vixi. Durmo, finalmente. Acordo pouco depois, levanto no breu. Perambulo, não quero, mas volto ao livro roxo, é madrugada, amanhã cedo trabalho. 

Por que ela insiste nesta história? Como é inocente, não percebe que não pode dar certo?
Volto a dormir. Sonho com ele. Ah não, justo ele, justo ele, que eu expulsara há tanto dos meus sonhos. Primeiro o mandei embora de minha casa, depois dos meus dias e finalmente, com muito labor, de minhas noites. Por que esse fantasma agora?

Acordo aflita, atrasada. Corro, tanto a fazer. Agir, resolver, esta sou eu. Faço. Adoro. Quanto mais tempo na rua, melhor. Especialmente porque em casa o tal livro roxo me espera. Da tal mulher que não me obedece e flerta com o abismo. Janto. Que fome. Sem fome. Que fome. Puxa, será que nem isso sei?

Já é tarde quando volto, banho, cama, jornal (não deu tempo de ler antes). Ele lá, me chamando. Quer que eu largue tudo. Exige toda minha concentração, mas estou tão cansada, não quero, não posso. Preciso dormir. Preciso agora dormir. E, no entanto. No entanto vou direto ao terceiro capítulo, onde parara na noite anterior. Quem sabe se eu terminar logo venha a paz, a paz que mereço. Mereço?

Letras, palavras, parágrafos, páginas correm, engulo quase num susto, tentando mudar o rumo da história. Mas o cansaço vence, durmo tão pesado que quase não lembro, quando o despertador toca, que ele invadira novamente minha privacidade noturna. Cara de pau! Pede desculpas, como se coubesse. Xô!

Quinta é dia de natação, me afogo no último tiro de cinquenta. Não sou de tiro, cada vez menos e os pensamentos pesam a cabeça, atrapalham o equilíbrio, onde já se viu um braço desse jeito depois de anos de piscina? Está perdida? Perdão, vou corrigir, prometo ao técnico, sem convicção. Talvez deva desistir de nadar, tentar apenas relaxar, boiar um pouco. Mas será que a água tornou-se perigosa demais para mim? Melhor terra firme? 

Trabalho, ufa, sempre me salva. Casa. Adoro minha casa desde que passei pela rua, vi o predinho amarelo de três andares, sem elevador em uma rua de casas. A placa de vende-se no segundo andar. A janelona iluminou minha alma encolhida. Reformei o apartamento e descobri tanto de mim. Minha cara, que eu mal sabia qual era. Sempre me alegra voltar para lá, mas não nestes dias. Medo. Medo do livro roxo que me tomou de mim. 

Mas, enfim, para onde mais iria? Lentamente, subo a escada. Giro a chave, tiro o livro da cabeceira, agora restam apenas dois capítulos. Chega: lanço aquela tormenta na poltrona da sala, um cobertor em cima para não me tentar. Esta noite não. É pouco. Coloco o livro em um balde, álcool, em chamas. Durmo que nem político: tranquila e profundamente. Se ele apareceu nem sei, não lembro de nada quando acordo, nem – ufa – do balde que sepultou o livro de capa roxa. 

O primeiro dia é o mais difícil e já foi. Vida que segue.  Não sei se no fim a protagonista deu a vigésima-sétima chance ao sujeito ou se tomou vergonha na cara. Melhor assim: se ela ousasse voltar com aquele lá, me daria raiva; mas se o tivesse abandonado para todo o sempre, talvez batesse pena. O que teria sido? Chega de curiosidade mórbida! O livro já era.  Dia inteiro para lá e para cá, cansada. Eu adoraria uma boa massagem, mas vou é para casa dormir, sem medo de 96 páginas de papel. 

Abro a porta. Ouço um ruído lá dentro. Ladrão? Não. Ele. Sim, ele. Ele está sentado na minha poltrona, camisa roxa, tênis roxo, livro roxo na mão.
 
- Ei, venha cá. Saudades de você.
- Como você entrou aqui? – pergunto, estupefata.
- Calma, minha querida. Entrei por suas mãos – e me mostra o livro intacto, que, em seguida, volta a ser pó. Como eu.

(Ilustração: Thomás Camargo Coutinho - http://www.flickr.com/photos/thomastaipa/) 

segunda-feira, 12 de novembro de 2018

A torta de Dionísio



(crônica nova)

por Luciana Pinsky

Aspecto delicioso. Recheio de amêndoa, com cor de perdição. Massa brilhante, convidativa. Confesso, fiquei balançada pela trufa que se insinuava logo ao lado. Afinal, no Olimpo dos doces, chocolate é Zeus. Mas desta vez optei pela dionisíaca torta de amêndoas.

– Boa pedida. Ela é a especialidade da casa.

Na primeira mordida admirei a textura do recheio. Foi a massa, porém, que me surpreendeu.

– Vai uma dose de pinga que faz toda a diferença. – me confidenciou a moça enquanto me servia água.

E segui para a segunda mordida, certa que aquela tortinha faria a minha tarde mais feliz. O sabor inicial explodiu até o céu da boca. Mas bateu certa culpa: há tempos não comia doce à luz do dia, ainda queria expurgar dois intrusos quilos que se instalaram em meus quadris desde um feriado gastronômico na casa de um amigo cozinheiro.

A terceira mordida foi com vontade: “primeiro o prazer, depois a culpa.”, lembrei do conselho nada ortodoxo de meu pai. E minha boca entorpecida pelo doce agradeceu meu progenitor.

A quarta mordida, afobada, não teve gosto, só hábito. Tal qual cigarro com café depois do almoço para aqueles que fumam e tomam café.

Água. Boca limpa. Com a derradeira mordida veio um amargor imprevisível. Mas como amêndoa, açúcar, manteiga, farinha podem amargar uma boca? Pois foi o que aconteceu. O prazer inicial deu lugar a sensações desagradavelmente familiares. Estômago um tanto embrulhado. Leve inchaço. Esôfago afogueado e boca, putz, boca inerte.

E, assim, me deparo com uma intolerância que jamais imaginei me antigir.

Amêndoa nunca mais. Se for transgredir, fuja dos intolerantes. 

(Quer ouvir a crônica? É só clicar no link abaixo. Desta vez há uma participação especial no fim)



(Ilustração: Thomás Camargo Coutinho - http://www.flickr.com/photos/thomastaipa/)

sexta-feira, 19 de outubro de 2018

Regras do jogo



(crônica nova)

por Luciana Pinsky


Quem: Dois jogadores. Sem técnico, sem reservas.
Espaço: Dois triângulos traçados no chão.
Como: Cada um em seu triângulo, os jogadores podem interagir, dialogar e viver, enfim,  sem causar danos.
Combinado: Os jogadores devem manter-se dentro de suas linhas. Quem passar é punido com a expulsão temporária (o que pode causar certo tédio naquele que permanecer em campo).
Plateia: melhor não (a distração atrapalha os jogadores).

Prontos?  Comecem no “já”. Ah, só esqueci de mencionar a última e mais importante regra: é proibido seguir regras.



(Quer ouvir a crônica? É só clicar no link abaixo)




(Ilustração: Thomás Camargo Coutinho - http://www.flickr.com/photos/thomastaipa/)

sexta-feira, 14 de setembro de 2018

Come pitangas, pequeno


(crônica nova)

por Luciana Pinsky


Ela ficava no fundo do pátio. Para os olhos dos adultos, nem muita alta ela era. Para mim, era o mundo. Alguns de nós subíamos, outros ficavam embaixo, esperando que os de cima balançassem os galhos e as pitangas vermelhas caíssem. A força no galho tinha de ser precisa: em excesso derrubava também as frutas ainda laranjas, privando-as, por tão pouco, de chegar ao ápice do sabor. Eu era da turma dos que subiam, claro.
Foi lá, na escolinha infantil, onde entrei falando pouco e saí escrevendo bastante, que conheci aquela frutinha azedinha e doce, com uma forma toda peculiar e a cor tão linda quanto caju maduro. Quase tão gostosa quanto amora, mas que manchava menos. A amora eu comia em casa mesmo, em uma árvore que ficava abarrotada duas vezes por ano. Mas isso eu conto outra hora.
A pitangueira era a aventura, a natureza, o refúgio possíveis para uma criaturinha de cidade grande. A pitanga era a coleta e nunca enjoava. Seu gosto, a quilômetros do previsível, me convidava para mais e mais. As crianças comiam e partiam para empurrar pneu, chutar bola, escorregar. E eu lá. Sempre lenta.  Este ano, depois de tantos que me separam da pré-escola, me deparo não com uma, mas com um monte de pitangueiras. Do meu caminho até o parque pela ciclovia passo por ao menos quatro. Paro, gentilmente puxo o galho repleto para baixo e faço a festa. Depois de pedalar, reservar dois minutos para colher pitanga a 200 metros de casa tem um gostinho até transgressor.
Já meu filho prefere amora. Muito cedo ele aprendeu a reconhecer amoreira pelo formato das folhas, pitangueira pelo cheiro da folha amassada. E jabuticabeira, cacaueiro, limoeiro, cajueiro, coqueiro... Nem parece menino de metrópole. Entre tantas delícias, ele se esbalda é de amora. Sabe como é, no fundo do pátio da escola dele tem uma amoreira. E o que tem no fundo do pátio da nossa escola é sempre mais gostoso. Será que daqui a pouco, quando estiver pedalando  sozinho pela cidade, ele vai parar e catar amora no pé? Será que até lá já terá se deixado encantar pelo agridoce da pitanga? Come pitangas, pequeno, para me dar esperanças.


(Ilustração: Thomás Camargo Coutinho - http://www.flickr.com/photos/thomastaipa/)

terça-feira, 14 de agosto de 2018

O artesão



(crônica nova)


por Luciana Pinsky

Por dias, o menino trabalhou em Emília. A garrafa pet, que outrora abrigara água de coco, agora era um parrudo tronco. Antes mero receptáculo, agora coração. As tampinhas faziam as vezes de pés e mãos, ligados ao tronco-exPET por barbantes. Uma bola de isopor insossa torna-se a cabeça cheia de personalidade, com cabelo de lã. Olhos, nariz e boca traçados a canetinha. Antes, entulho, agora boneca. Antes, quase lixo, agora a companheira do menino. Antes, quase nada; agora, quase tudo.

Por meses, o homem notou Lara, jeans, camiseta, igual a tantas, boca, carne, osso, pele. Conversaram. Ele indicou um livro, ela leu. E leu todos do mesmo autor do acervo da biblioteca do bairro. Ele mandou uma música, ela ouviu. E passou semanas conhecendo tudo o que aquela cantora gravara. Ele falou que fora campeão de natação, ela voltou às piscinas. Ele comentou que adorava a sensação de liberdade da bicicleta, ela passou a ir pedalando ao trabalho.

O menino fez Emília. Não venha com raquéis, marias, julias ou qualquer outra boneca, com nome ou não. Ele quer Emília. Pois Emília é... Emília. A Emília dele. Não tem outra Emília no mundo, por mais que garrafa pet, lã, barbante e tampinha haja aos montes.

Para o homem, Lara já não era igual a tantas, pele, carne, boca, ossos. Era a pele de Lara, a boca de Lara, os ossos de Lara, a boca – ah, a boca – de Lara. Era tudo dela e por ser ela, era dele. Deixou de ver julias, gabrielas, alices, isabelas, jeans, camiseta, carne. Ele quer Lara porque ela é... Lara. A Lara que ele forjou. Que será sempre dele não importa o caminho que seguirem, porque a Lara dele só existe para ele.

Ele pensa que molda sua Lara, assim como construíra sua Emília. Justamente o contrário: Emília e Lara que o criaram.

(Ilustração: Thomás Camargo Coutinho - http://www.flickr.com/photos/thomastaipa/)

quarta-feira, 18 de julho de 2018

Memória do corpo




(crônica nova - última da trilogia sobre o tempo)


por Luciana Pinsky


Não foi assim de caso pensado. Toquei seu braço meio por acaso. Depois o acaso passou e o braço ficou. Mas comecemos pelo começo. Como se eu soubesse quando o começo começou.


Não sei. A memória do corpo é mais forte que a da mente. Só que ela é ruim de datas.

Palavras? Não registrei. Era para ser coisa rápida. Sempre compromissados, nós. Mas o tempo tem seus caprichos. Como ela.

Apoio o pé na parede. Espero. Quando passei eu a esperá-la?
Ao vê-la, os dentes procuram o lábio. Esses lábios que já. Os mesmos dentes que.

A partir daí dentes e lábios fizeram o que dentes e lábios devem fazer. Foi um blábláblá sem fim. Mas se me perguntar o que falamos, não sei. Futebol talvez. Algum livro que nos ocupou a noite. Banalidades sobre a política atual. E valas, diversas, o ar limpo almejado. Isso, valas e ar, certamente.

Minha mão no braço dela. Choque. Será estremecimento? Ou apenas resultado da secura de inverno?

A memória do corpo é mais forte que a do espírito. Só que ela se confunde. Por vezes, intencionalmente.

O braço eletrizado move-se para longe de minha mão: um gesto pretensamente trivial. Como nossa conversa, como meu toque, como nosso encontro. Como quase tudo na vida, que a gente acha que é assim mesmo por capricho do tal “deus sonso e ladrão”, mas que nós mesmos estamos cavando com nossos pés, nossas mãos e demais recursos que se fizerem presentes. Sei, divago. Mas o que você quer de mim? O que quer?

- Boa pergunta. O que você quer?...

É só o que lembro, é só o que consigo dizer hoje. E também que a memória do corpo é mais forte que a da alma. E ela é mortalmente sedutora.

(Ilustração: Thomás Camargo Coutinho - http://www.flickr.com/photos/thomastaipa/)

sexta-feira, 15 de junho de 2018

Perigos da rua


(crônica nova)

por Luciana Pinsky


Eu ainda não existia para você, mas você já existia para mim. E percebê-lo ignorando-me era ruim. Pior, no entanto, foi vê-lo concentrado em outra. Tão concentrado que parecia que poderia morrer naquele momento infeliz. Aliás, poderia mesmo, despreocupado que estava com os perigos das nossas ruas. Que desleixo, Mau!

Aquela cena feriu minhas retinas, mas também me intrigou. Quem era você? Quem é você? O destemido que eu presenciava ou um pseudoconciliador de coisas inconciliáveis? O moço certinho de fala suave que se apresentava em público ou o desvairado inconsequente ali, na minha frente? Homem de ciências ou das artes?

Pior é que eu tentava desviar os olhos para o futuro, mas só conseguia enxergar aquela cena quente, quer dizer, indecente. E a moça despudorada, não sabia que eu poderia vê-los? Não sabia que eu não queria vê-los? Não sabia que ao vê-los eu, imediatamente, me apaixonei?


Pois é, você se achava muito boa? Tanto ostentou, que dançou. Ele é meu agora. Perdeu, Patricinha!!!!!!!


(Ilustração: Thomás Camargo Coutinho - http://www.flickr.com/photos/thomastaipa/)

quinta-feira, 10 de maio de 2018

Quanto tempo tenho?


(crônica nova - 2ª da trilogia sobre o tempo)
por Luciana Pinsky

Dormi adolescente e acordei velhinha, me perguntando quanto tempo mais? Quanto tempo até que o branco dos cabelos invada minha alma, até que as rugas ao redor dos meus olhos finalmente me ceguem? Quanto tempo com sede? Quanto tempo para escrever, para ver seu sorriso e relevar seu ranger de dentes? Quanto tempo ainda pensando, comendo, tomando banho? Querendo saber do sol, preocupada com a chuva? Quanto tempo para ler, aprender, explicar, me entender? Quanto tempo tornando textos, livros; gente, autor; ideias, páginas? Quanto tempo respirando sem adrenalina?

Um dia a mais é um dia a menos.

Tempo fugidio, que desperdiço como já fui desperdiçada por aí. Um minuto não é nada, uma hora não é nada, um dia nada é, uma semana, um ano, uma década que se vai e o que fica? Quem fica em mim? O que fica de mim? Onde permaneço? Permaneço?

Quanto tempo fingindo. Fingindo não fingir. Quanto tempo fugindo, quanto tempo perdido em bomba de chocolate (uma obsessão). Todo tempo é pouco para ver o mar, para estar no mar, para ouvir o mar, para me encantar com o mar. Quanto tempo para amar, só amar. Quanto tempo para fazer novos amigos porque os velhos já me conhecem errado. Quanto tempo para conseguir ser outra, outras.  Quanto tempo para sentir o que nunca senti. O que existe ainda para ser sentido?

Quanto tempo até meus olhos já não procurarem, até minhas pernas não me bastarem; até não sobrar nada daquela criança, a não ser o ciclo das samambaias decorado, que permanece sob meus protestos?

Vou calcular todas as minhas horas porque não quero sorrir porque é educado, beijar porque é o certo, comer sem vontade. Não. O tempo que me resta é meu, não seu. Para me perder em você, não de você. Meu tempo, meu tempo, Meu Tempo.

Quanto tempo ainda com vontade, ainda com coragem, ainda à procura? Quero vida. Quero pulmões em operação normal, pernas trabalhando, bicicleta. É isso. O tempo que me resta inspiro e expiro fluentemente; tão fluentemente que nem noto inspiração e expiração. Quando não tiver mais esse tempo, nem esse tempo, meus meninos saberão: já não serei eu. Meu tempo, ele sim, expirou. 


(Ilustração: Thomás Camargo Coutinho - http://www.flickr.com/photos/thomastaipa/)

terça-feira, 10 de abril de 2018

Em busca da bola perfeita


(crônica nova) 

por Luciana Pinsky


Tenta, em vão, passar o troço verde em formato de um pequeno osso pelo buraco do pentágono vermelho. Frustrado, acha que o brinquedo não presta. Ou ele que não presta? Ou talvez a mamãe, que não soube ensiná-lo direto a passar o troço para o outro lado sem que se desmanchasse.

Se juntar todas as peças muito direitinho dá para formar uma bola. Mas tem de passar a tal peça verde de borracha pela vermelha, que serve de base.  Os hexágonos amarelos, um pouco maiores, também precisam ser devidamente utilizados. As peças verdes vão juntando as vermelhas e amarelas que, se posicionadas corretamente, se curvam até formarem a bola. Servirá para chutar? Não, mas pouco importa, será a vitória da perseverança, projeto concluído em tão tenra idade.

Mas para isso a bendita pecinha verde tem de passar pela vermelha. E muitas vezes, não uma, nem duas, nem três. Serão infinitas para ele? Será que o infinito dele é o mesmo que o meu? Como conceber algo que não acaba? Tempo, talvez? Espaço? Mas se não acaba como caberia em meu pensamento? Voltemos, porém, às concretíssimas peças amarelas, vermelhas e verdes.

- Quem me ajuda?

Ah, menino, é tanto troço que tem de ir de um lado para o outro das coisas o tempo todo. São espaços exíguos, peças grandes, que devem passar intactas, mas nunca passam, pois experiência marca a gente.

E ele choraminga:
- Não consigo.
- Olhe, meu amor, tente dobrar assim, fazer a força assim e passa.

A combinação de força certa com destreza é arte para poucos.

Ah, querido, é difícil mesmo. Saber quando bater, quando desviar, quando forçar, quando ceder. Ceder sem perder. Forçar sem rasgar. E lá vai ele de novo, algumas peças perecem. Mas ele insiste, pede novo auxílio; os voluntários são reprovados: um faz para ele, outro rasga igual. Volto à cena.

- Está vendo essa ponta da pecinha verde? Tem de dobrar bem dobradinha. Assim, isso. Agora empurre pelo buraco com a outra mão e não deixe as pontas desdobrarem. Isso, muito bom.

- Passou? Passou!

Essa passou, meu menino. Mas tantas e tantas ainda irão cobrar sua habilidade. A calma para analisar a situação, o planejamento, a entrega à tarefa. Saber agir no momento certo, da forma correta, sem causar danos (ou poucos danos). Conhecer toda a força que possui para saber o quanto dela utilizar. Descobrir formas diferentes de agir. Quisera eu ter aprendido a passar todas as peças da vida pelas incontáveis bases que não param de aparecer.


Ele ainda passa, sozinho, dois “ossinhos” verdes, unindo um pentágono vermelho a um hexágono amarelo até que aquilo perca completamente a graça. A bola perfeita? Talvez  na próxima.

(a segunda crônica da trilogia sobre o tempo virá, prometo, em breve)


segunda-feira, 19 de março de 2018

Margens



(crônica nova - 1ª da trilogia sobre o tempo)

por Luciana Pinsky

Queria que você me desse só o tempo jogado fora. Recolheria na maior alegria segundo por segundo do tempo da fila, do semáforo abrir. O tempo espremido em uma poltrona de avião. O congestionamento na estrada. Os minutos entre o pedido da conta e o papelzinho em suas mãos. Entre o sinal tocar e a aula começar. Entre subir no trem e conseguir sentar. Se for horário de pico, sorte a minha.

Esquece o telefone. Vem para mim.

Aproveitaria cada segundo desperdiçado. De tirar a tampa da caneta até começar a escrever. Do pão entrar no forno até ele crescer. Do computador ligar depois do botão acionado. Os comerciais antes do filme do Darín. Ah, os comerciais, onipresentes, são grandes aliados. Quinze minutos inteiros de intervalo em uma partida modorrenta de futebol. Os melhores quinze minutos do jogo, garanto.

Em vez do tédio, eu. Nós.

O tempo em que espera sua companhia do almoço. O quanto a moça da Claro demora a atendê-lo. Telemarketing, outro aliado!  A água esquentando no balde antes do banho (você não desperdiça água também, não é?). O tanto que você espera a criança na porta da escola. O tempo do elevador chegar. Do portão abrir. Da caixa do supermercado passar suas compras. No ponto, até o ônibus parar. O tempo entre dar o dinheiro e receber o troco. Entre o primeiro resmungo matinal do menino até ele efetivamente exigir sua presença.

Sua presença.

A minha ambição suprema sempre foi o momento antes de dormir, logo que você repousa o livro no criado mudo e apaga a luz. Se ao menos nesse tempo você fosse meu...Você se recusa: “afastaria o sono perfeito”. Tudo bem, fiquemos mudos. Mas dedique esse tempo só a mim. Eu saberei.


(Ilustração: Thomás Camargo Coutinho - http://www.flickr.com/photos/thomastaipa/)

sexta-feira, 16 de março de 2018

I can’t believe in news yesterday

(artigo novo)

Hoje era para ter texto de ficção, mas não deu.

Um dia ela estava em classe acolhendo crianças, no outro tentava proteger o nariz ensanguentado depois de levar um golpe de cassetete de um membro da Guarda Municipal de São Paulo. Poderia ser uma professora do meu filho, do seu filho ou, quem sabe, do filho de algum membro da Guarda Municipal de São Paulo. Não, provavelmente não é professora nem de filhos nem de netos dos vereadores reunidos para discutir o projeto de lei solicitado pelo quase-ex-prefeito de São Paulo (que também não tem parentes em escola pública) e objeto de protesto de professores (em grande maioria, mulheres). Resumo: porrada em professoras municipais dentro da Câmara.

Pouco depois de o líder do governo, vereador João Jorge defender a porrada em professores (“a segurança pública tem que fazer valer seu trabalho”, segundo disse à Folha de S.Paulo), no Rio de Janeiro uma vereadora era abatida na rua com saraivada de balas (e junto com seu motorista). Veja, no Brasil foram eleitos, em 2016, 57.828 vereadores. Desses, apenas 13,5% (7.803) eram mulheres. Uma delas teve, no Rio de Janeiro, 46,5 mil votos, a quinta maior votação para o cargo na cidade. Cargo que Marielle Franco deixou de cumprir porque virou outra estatística: das mulheres assassinadas. Era minoria em vida (mulher, negra, eleita vereadora...) e continuou minoria em sua morte: em 2016 dos sempre espantosos 61 mil homicídios que tivemos, 4,5 mil atingiram mulheres. Ou seja, menos de 7,5%. 

Não sei se você acompanha política, se tem alguma preferência partidária. Não sei se gostava ou ao menos conhecia a atuação de Marielle Franco ou se acompanha a situação da educação pública em São Paulo. Mas sei que você é contra assassinatos a queima roupa e violência física contra professores. E que talvez, como eu, fique ainda um pouco mais chocado quando as vítimas são mulheres, que estão lutando por um pouco mais de terreno no espaço público. Certo?

quinta-feira, 22 de fevereiro de 2018

Na feira




(crônica nova)

 Por Luciana Pinsky


- Quanto é?
- 50.
- É muito, seu moço.
- Semana passada não tinha em lugar nenhum. E quando tinha, saia por 100. Agora tá até bom.
- Mas eu sempre comprei a 10.
- 10? Vixi, quando isso?
- Ah, a vida toda. Só não procurei nos últimos três anos. Fiz um estoque grande e fui viajar. Voltei há pouco e estou tentando me assentar. Mas a 50 eu entro em falência.
- Pois é. Falimos todos.
- Bom, moço, se a empatia está tão cara, ao menos me consiga uma dose de tolerância.
- Ih, tá em falta.
- Vendeu tudo?
- Ao contrário: como não tinha mais saída, deixaram de fabricar.
- Mas o que você tem, afinal?
- Convicções e certezas. É baratinho, dona, para você vendo cada bacia por 5.
- Ok. Se é o que temos.

segunda-feira, 15 de janeiro de 2018


Palito de dente




(crônica nova)

por Luciana Pinsky


Sempre quis partir. Aprender outra cultura, mudar perspectivas, sair do conforto da inércia. Gosto do Brasil e tudo mais, mas sou do mundo.
Então quando o vi foi empatia instantânea. Olhos claros – sempre achei que olhos azuis fazem ótima companhia aos meus, jabuticabas. Loiro, andar decidido, amor pela estrada – conhece muito mais países do que eu, pois lhe bastam duas horas de carro para atravessar alguma fronteira. Poxa, em duas horas, a depender do trânsito, ainda nem consegui sair de São Paulo...
Mas o melhor ainda estava por vir. Inteligente, gosta de ler e nutre certo carinho por mim. Digo “certo” porque se já é difícil decifrar homens em geral, o que dizer de um cara cuja língua me é uma total incógnita? – sei que água é voda, fora isso...
Claro, conversamos em inglês, mas debaixo de um segundo idioma fluente bate um coração repleto de signos intraduzíveis. Como chegarei lá? Como seria nosso dia a dia? Será que depois de quase três décadas de vida ainda consigo adotar nova língua? Por sinal, será que ele beija bem?
Era o que eu pensava na mesa do restaurante,  depois de devorar um belo espaguete aos frutos do mar. Fazia três dias que conhecera Luka subindo uma montanha no gigantesco parque nacional e desde então passamos a viajar juntos. Como amigos. Mas, será?
Então ele pede à garçonete que, por favor, traga palitos. Pega um, começa a limpar os dentes enquanto discute alegremente comigo os planos para o dia seguinte.
Olhei para os lados, falava com ele sem encará-lo, mas o fato estava lá, escancarado. Ele começou lá atrás nos molares, com vontade, foi se aproximando dos pré-molares, dos caninos até os incisivos. Fazia a limpeza de forma apaixonada, detalhada, minuciosa e eu ali, falando de Piran, de Triglav, de Bled?
Quando ele finalmente terminou o serviço – cinco minutos, talvez, mas para mim o tempo de uma vida inteira que não ocorrerá mais – manteve o palito entre os lábios, mascando a madeira com vontade, levando com a língua de um lado para o outro da boca.
A viagem foi divertida, mas, definitivamente, Ljubljana só a passeio.



(Ilustração: Thomás Camargo Coutinho - http://www.flickr.com/photos/thomastaipa/)

sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

Maria e o mar


(conto novo)

por Luciana Pinsky

Maria nunca viu o mar. Já viu queda brusca, dor profunda, montanhas de todos os tipos e tamanhos. Viu trem, ônibus e avião. Elevador e escada rolante. Ruas, avenidas, estradas. Piscina, lagos e rios também. Mas nunca, nunquinha colocou seus pés na areia da praia.
Ela já amamentou três filhos, casou a mais velha, não tarda será avó. Compartilhou a vida com quatro homens. É casada, já foi solteira, viúva e separada. Mas nunca, nem uma única vez, viu o horizonte vazando água. A espuma brincando na areia.
Ah, Maria, eu quero estar nos seus olhos quando eles encararem o mar. Adoraria calçar seus pés quando a areia fina os envolver. Vestir seu corpo temeroso e ávido da correnteza. Sentir, enfim, o arrepio da sua pele quando o vento grudar o sal da água em você.
Para mim, ao contrário, o mar veio antes de dor, montanha, piscina, gente. Nasci do mar, tal como Afrodite. Peixes, tartarugas e ouriços ouviram meu choro inaugural. Seguem ouvindo. O sal marcou minha pele, que até hoje se ressente da sua falta.
O mar sou eu. Ele calmo, eu tranquila. Ele onda, eu energia. Ele frio, eu gelada.  Não... quando eu for, ele ficará. Ele é muito mais. Ele é Raul dormindo no colo da tia com o balanço suave e morno. Ele é Pedro desafiando-se. Ele é Dora virando peixe, virando ela, me deixando para trás.
O mar é verbo. Não. O verbo veio depois. Tudo veio depois. O mar é. Sempre. Ele era, ele foi, ele é, ele será. E eu, quando muito, sou. Um pouco.
O mar é deus. Não. Até deus veio depois. E só para alguns.
E você, Maria, inverteu tudo. Como pode existir vida sem água salgada? Como será a primeira vez no mar? Você se tornará devota? Pulará ondas para Iemanjá? Ou se perderá no absoluto? Ah, isso é com você.
Mas, sabe, Maria, é um pouco injusto. Eu nunca terei o mar pela primeira vez. 


(Ilustração: Thomás Camargo Coutinho - http://www.flickr.com/photos/thomastaipa/)

sexta-feira, 24 de novembro de 2017

Casa tombada

(conto novo)
por Luciana Pinsky

Primeiro foi a faca. De silicone, cortava fruta, legume, carne, a salvação de tantas noites. Não estava mais lá. Depois, notei a colher para sorvete. Não qualquer uma. Aquela que tem uma espécie de pá por trás, igual das sorveterias. Lembro quando encontramos e nos dissemos que a partir daquele momento, sorvete toda noite, que nem na viagem para Toscana.

Demorou, mas doeu o sumiço do descaroçador de azeitona. Para que você quer isso, perguntei. Você disse que às vezes a gente não sabe o que precisa até se deparar com o que precisa. E que eu iria adorar, já que era fã de azeitona. Ainda sou, e agora só com caroço.

A panela de pressão foi presente seu no nosso primeiro dia dos namorados. Você nunca fez feijão na vida? - riu. Na época você achava até minhas faltas engraçadas. Depois notou que elas se multiplicavam que nem gremlin molhado e a graça acabou. A panela ficou, intacta.

E a tábua? Eu tinha uma linda, de vidro. Você disse que ela servia para colocar na mesa, servir um queijinho, mas na hora da lida, só a de madeira. Ou de plástico. E percebi por quê. E agora, cadê?

Pior é olhar o vazio no lugar daquela xilogravura do Jota Borges pela qual nos apaixonamos juntos lá em Bezerros. Dava um ar quente para casa, um ar de casa da gente, mas quando a gente deixa de ser a gente a casa tem de deixar de ser quente? A xilo se foi, mas estranhamente as fotos você deixou todas, inclusive dos momentos felizes, assinando papel com cara de para sempre. Não tenho meu descaroçador de azeitona, mas preciso topar todo dia com o passado que o presente mudou.

Ah, e aquela estranha e pesada máscara que reclamei tanto de carregar de Botswana para cá porque ocupava muito espaço na mala e quando foi para a parede percebi que a artista só pode tê-la pensado para nossa casa? O que ponho lá agora? Nada mais cabe ali.

Estranhamente, ainda guardávamos CDs. Você levou aquele raro que eu tinha do Riachão, mas deixou o da Tulipa Ruiz que já está copiado e decorado. Será que Tulipa funciona sem Riachão? Será que reconheço a casa sem você? Abro um livro ao acaso. Presente meu para você no nosso aniversário de um ano, com dedicatória piegas: você me faz uma pessoa melhor. Agora quem sou? Pior?

Outro dia tive de imprimir um documento, tão raro isso. E corre para a vizinha, pois a impressora não existe mais. De volta, fui grampeá-lo. Com que grampeador? Tá tudo na metade por aqui, o vazio que se estende da cama à parede, do peito ao chuveiro.

Pois banheiro e quarto ficaram espaçosos demais. Ganhei as duas gavetas que você insistia em ocupar com perfumes, barbeador e até uns creminhos (que jamais usou). Os armários do quarto estava tentada a ocupar, mas quando abro, vem a vontade oposta, de esvaziar as minhas estantes até ficar só com o mínimo, para que tanta coisa, para que tanta coisa de alguém que já não é?

Raras vezes me largo despreocupada no sofá (sem pufe), mas logo sobe um arrepio: penso sentir a maçaneta girando daquele jeito tão seu de virar a maçaneta. Encaro. Inerte. Você nunca mais a fará girar, sei bem. Só não sei quem sou só.

Mas, prometo: a partir de hoje começo a me descobrir.

(Ilustração: Thomás Camargo Coutinho - http://www.flickr.com/photos/thomastaipa/)

quarta-feira, 7 de junho de 2017

Se nada der certo

(depois da polêmica do evento “SE NADA DER CERTO” em uma escola me deparei com este texto com uma visão de um adolescente com uma visão um pouco diversa sobre o “dar certo”)

Nada deu certo para mim. Nada? Bom, nada do que eu tinha imaginado que seria minha vida. Sempre fiquei na minha, de boa. De boa com quem é de boa, claro. Na minha classe tinha gente muito estranha. Gente que andava largado, parece que nunca se olhou no espelho. Gente que vinha com camisa às vezes meio rasgada, gente que usava uns cadernos do ano anterior, caneta até acabar toda a tinta. Parece que uns tinham bolsa, sei lá. Gente que grudava no professor, fazia um monte de perguntas, não estava nem aí para curtir. Tá certo que não dava para esse povo curtir, pois não tinha nada a ver com a gente, gente de boa. 

Bom, fora, então, as meninas estranhas e os meninos esquisitos, o resto da turma era de boa. Eu estudava para passar nas provas e sempre deu certo. Nunca fui aluno 10, nunca fui aluno 0. Meus amigos vinham sempre em casa, adoravam a piscina, a quadra de tênis, o campinho de futebol, o lanche da tarde.  Eu saia muito, curtia muito. Achava que tudo já tinha dado certo. Só que não.


Um dia cheguei na escola e parecia tudo muito diferente. Meus amigos nem chegaram perto. Ficou todo mundo me encarando, como se a minha camisa estivesse rasgada. Quando entrei na sala, meu lugar estava tomado e quando quis sentar lá me falaram para ir para o canto. Não quis discutir, sou de boa. Quando sentei, todo mundo começou a gritar: ‘filho de ladrão, filho de ladrão’ até o professor entrar, pedir para pararem, dizer que não iria aceitar descriminação em sala de aula. Que vergonha. Nada deu certo.

(8/6/2017)

quarta-feira, 26 de novembro de 2014


O confronto

De um lado Márcio. Ele provavelmente tinha sonhos. Queria estudar, ser veterinário, trabalhar com cachorros e gatinhos. Mas mal e mal terminou o ensino médio.  O professor de Biologia – sua matéria preferida -, raramente aparecia e quando vinha era uma ladainha de nome sem explicação. Olhava a sala com desprezo e se Márcio ousasse uma pergunta era logo desencorajado. Assim, Márcio foi se calando e antes que a vida de adulto começasse desistiu da vida com que sonhara. Teria o que desse, do jeito que desse. Mas ia ter troca, ah ia. Virou atendente da Eletropaulo.

Do outro lado, eu. Sem luz há exatas oito horas – depois de ter psicado e ameaçado acabar no início da noite, ela se foi de vez às 23h. Às 7h a energia permanece tão distante quanto em uma praia perdida em que a geladeira é movida a diesel. Exceto que estou na rica, desenvolvida São Paulo. Cidade que não tem água e quando chega água em forma de chuva, fico sem luz. Afinal, tudo não dá como dizia a tia do meu pai.

E lá vou eu enfrentar o Márcio.
- Sim.
- Estou sem luz há 7 horas, gostaria de saber o que aconteceu.
- Essa informação não tenho, senhora.
- ... E quando a luz vai voltar.
- Essa informação não tenho, senhora.
- Mas que informações você tem, Márcio?
- As que a senhora me passar: endereço, telefone de contato, número de instalação etc. etc. etc.
- Mas, Márcio, você não pode me dizer nada? Tenho criança pequena, moro em andar alto.
- Posso. O número do protocolo é 380557620.
- Mas o que faço com esse número se você não me deu informação alguma? Quando a equipe vem consertar? O que está acontecendo?
- Mas, senhora, o que a senhora quer que eu faça? Não sou o superman da Eletropaulo.
É serio. Márcio, aquele garoto tímido da classe de Biologia me disse isso. Por que o consumidor tem de ser necessariamente tratado como lixo? Eu achava que não estava pedindo muito, só luz. Márcio se vingou de uma vida de frustrações. A Eletropaulo lava suas mãos (com água da chuva, claro). Perdemos todos.

(26/11/2014)

quarta-feira, 11 de maio de 2011

Querido,

(crônica nova)
Por Luciana Pinsky


É um prazer tão grande vê-lo que até esqueço a quantidade de sofrimento despejada na minha vida com sua furocólica aparição. Dei até para inventar palavras, pois as que existiam não eram suficientes para você. Sempre megalomaníaco, até quando não queria. Encontro casual com a pessoa menos casual do planeta. É um prazer quase físico olhar nos seus olhos. É uma alegria leve, que de nada lembra as noites solitárias regadas a Orwell e licor de pera. É, aquele licor mesmo que você recusava, pois era de uma doçura enojante. Enojante era sua falta de açúcar.

É um prazer mesmo, ironia nenhuma. Nunca fui irônica, nem quando tentava. Gostava um absurdo de tê-lo por perto. Você me perguntava o motivo e eu não sabia. Como saber? Sei que você se foi e ficou o licor de pera desprezado, mais livros do Orwell – recomendo o da filha do reverendo, se você não leu, tem tudo a ver com as noites gélidas de Curitiba – e nada dos meus antigos colegas. Você, seu vocabulário interminável, eu, minhas dúvidas sem fim. Era errado. Simplesmente errado.

Era? Talvez. Todos sabiam. Todos. Você, logo de cara. Mas, inebriado por meu “exotismo” (exótica? eu sou a pessoa mais normal que conheço...) teve de me beijar. Já eu nem queria saber de “errado”, coisa mais antiga. Agora sei. Fiquei marcada. Perdi companheiros, horrorizados com os meus atos, minha entrega. Tive até de deixar a cidade, vim aqui para cima no calorão. Também eu larguei o licor de pera para nunca mais. Raiva? Ressentimento? Rancor? Nada disso. Hoje, estranho, só lembro do prazer de estar ao seu lado. Da graça. Da intimidade tão absurda para duas pessoas que mal se conheceram. Torno-me tolerante, surpresa até para mim. Deve ser a Maria, que já me transforma mesmo antes de chegar.

É tão, tão bom falar com você. É como se tivéssemos nos visto ontem. O mesmo homem nobre. Mantém a elegância fidalga que me intrigou. Agora sei que foi por causa dela que você me ganhou. Justo eu. Uma mulher revolucionária até nos fios de cabelos descoloridos. Do povo, para o povo. Quem diria que seus múltiplos cabelos brancos iriam me distanciar do meu lema. Até a Corte frequentei. Luta de classes? Que nada: eu queria as classes bem juntinhas.

E aí a desgraça anunciou-se, como você anunciara. Você sempre disse que seríamos vulcânicos. Chocantes. Pecadores. Inviáveis. Os opositores, do meu lado e do seu, repetiam como mantra:

- Povo e Aristocracia unidos?

- Como ela pode se vender assim?

- Como ele pode decair tanto?


- Como o amor pôde ser tão volátil? – pergunto eu, que desde então alcancei a felicidade sóbria.

A resposta deve estar em mim, como os céticos e estranhamente invejosos espectadores cochicham (inveja do que, afinal, da sua calculada distância? da minha capacidade de continuar feliz ao vê-lo?). Não replico. Não reclamo. Prazerosamente, constato.

Foi, como sempre, um prazer, meu querido. Que esta o alcance bem. Espero que tenha feito boa viagem.

Beijos,

Eu.

(Encontros I)

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Meia história


 
(crônica nova)

Por Luciana Pinsky

Nossa história poderia ter sido uma sucessão de sonhos ou ataques incessantes de predadores. Não foi boa ou ruim porque nem história foi. Foi meia história, quase um filme francês. Não, não, péssima comparação. Filme francês dura tempo demais e nada acontece. Por isso não tem fim. Nossa história durou tempo de menos e tanto aconteceu... por isso teve um meio fim. Ou um fim completo mesmo com direto a renascimento no melhor estilo Caetano Veloso para quem gosta dele (“E quem há de negar que esta lhe é superior”)

Meia história porque começou com tudo, continuou no tranco e acabou por WO. E WO, convenhamos, não tem a força dramática de um violão na cabeça, de discos riscados, de gritos noturnos, de terceiros no caminho, de mudança de cidade ou, muito mais grave, de querer-me atleta.

Você, imagino, tem histórias completas com ciclos bem vividos e ressentimentos guardados. Você só me falou de relance, como de relance me olhou, mas foi suficiente. Eu sempre completei as lacunas, tantas, de tantas formas que hoje já não sei se fazem parte da nossa meia história ou apenas do meu quarto de história.

Mas acho que já me estendi demais. Nossa meia história não é romance, conto ou mesmo crônica. Está mais para haicai, mas haicai eu não sei escrever.
Pensando bem, se nossa história em vez de meia fosse inteira, ela não seria tão prolífera. Completo nossa meia história com história inteiras tão reais que nelas habito ao menos no tempo da escrita. Acompanha-me?

(Encontros II)

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Reportagem

De bicicleta na Provence. Reportagem escrita o ano passado para o UOL Viagens. Acaba de ir ao ar. O link é: http://viagem.uol.com.br/ultnot/2010/11/03/pedalando-quatro-dias-pela-regiao-da-provenca-na-franca.jhtm